Parece que nos dias que correm toda a gente se queixa de falta de tempo. O plano9 não foge à regra. Afazeres escolares e profissionais roubam tempo precioso. Para perceberem que não estamos esquecidos disto (prometemos regressar em força daqui a uma semana, mais coisa menos coisa), fica aqui uma "recensão" a um dos capítulos do livro "O que é o Cinema?" de André Bazin. Trabalho escolar, pois está claro.
André Bazin, no capítulo XIV do seu livro “O que é o cinema?”, fala-nos do papel das crianças no cinema e das alterações que esse papel sofreu com o passar do tempo. Essas alterações levaram a que se abandonasse uma estética mais “angelical” e teatral, que, segundo o autor, tinha como representante a actriz Shirley Temple, para se dar mais atenção aos pormenores tipicamente infantis como as sardas de Mickey Rooney.
Para Bazin, há qualquer coisa no rosto das crianças, que, ao se misturar com o mistério provocado pela narrativa cinematográfica, nos provoca sentimentos contraditórios. Segundo o autor, se por um lado admiramos a singularidade e pureza dos traços especificamente infantis das crianças, por outro, desejamos ficar tranquilos em relação ao mistério e esperamos sempre que os rostos das crianças projectem sentimentos, que nós, como público adulto, conhecemos bem, talvez por esses sentimentos serem os nossos. É como se o rosto ou as atitudes das crianças na tela fossem uma espécie de máquina do tempo que nos permite viajar para uma época que já não é a nossa. Na inocência e ingenuidade que a criança demonstra, existe uma identificação da nossa parte para com essas características tão típicas da infância que com o passar do tempo deixámos fugir.
Bazin afirma que são raras excepções os filmes de crianças que não se aproveitam da ambiguidade do nosso interesse por elas. Para exemplificar esta manipulação, o autor recorre ao filme “Algures na Europa” de Radványi, onde vemos uma criança a ser abatida enquanto toca a Marselhesa na sua harmónica. Segundo Bazin, esta morte, que o espectador interpreta como um acto heróico, só é passível dessa interpretação devido à concepção adulta de heroísmo.
“Alemanha, Ano Zero”, de Roberto Rossellini, surge aqui referido por André Bazin, como um exemplo de profunda originalidade e como um “remar contra a corrente” da estética manipuladora característica dos filmes de crianças.
Mas para percebermos o motivo deste exemplo temos também que perceber em que corrente cinematográfica Rossellini se insere, ou seja, o neo-realismo, uma corrente que para além do cinema também teve lugar na música e em outras formas de arte. Há nesta corrente, surgida após a Segunda Guerra Mundial e motivada por uma falta de meios técnicos e humanos, uma nova temática na linguagem, mais ligada aos problemas sociais, e na relação com o público, colocando-o noutro patamar de entendimento. Se no cinema narrativo tradicional é permitido ao espectador identificar-se com a personagem, apreender o drama vivido no ecrã e identificar-se com ele, como se fosse seu, no neo-realismo, mais que retratar a realidade, a intenção era usar o cinema como uma ferramenta para a transformar. Nas várias vertentes que o neo-realismo tomou, Rossellini defendeu a necessidade de expressar a decadência e degradação espiritual do povo, a fim de garantir a sua sobrevivência.
Para Bazin, “Alemanha, Ano Zero”, coloca de parte toda a simpatia sentimental que o espectador poderia eventualmente sentir pelo actor principal, uma criança.
A neutralidade do rosto da criança de 11 ou 12 anos, actor principal de “Alemanha, Ano Zero”, nada transparece e se conseguimos discernir os seus sentimentos, não é graças à sua expressividade facial ou comportamental, mas sim aos elementos que o rodeiam e às conjecturas que concebemos mentalmente.
André Bazin afirma ser óbvio o motor da história e o incentivo para as acções da criança, expressas nas palavras que o professor de escola nazi lhe diz, “é preciso que os fracos dêem o lugar para que os fortes vivam”. No entanto, se estas palavras funcionam como motivação para que a criança envenene um velho homem, é completamente impossível distinguir no seu rosto o que lhe vai realmente na alma. Esta situação deixa o espectador confuso, e segundo Bazin, a falta de expressividade do rosto da criança faz com que o espectador tanto possa concluir pela indiferença da criança como pela sua possível dor. O conflito interior que a criança está a sentir naquele momento não passa para fora, só a ela lhe pertence.
Para Bazin, a interpretação dos sentimentos da criança só é possível graças à própria explicação do realizador, que através de trucagens liga os elementos do filme que permitem essa interpretação. No entanto, é nos 15 minutos finais de “Alemanha, Ano Zero” que a estética cinematográfica de Rossellini atinge o seu expoente máximo. Ao longo desses 15 minutos vemos uma criança a percorrer uma cidade destruída em busca de aprovação para as suas acções e quando não encontra essa aprovação, acaba por se suicidar. Apesar do dramatismo que esta situação acarreta, a câmara, ao acompanhar a criança com os seus grandes planos, nunca revela mais que um rosto preocupado, não soubesse o espectador de antemão os acontecimentos e seria para ele impossível perceber os motivos daquele semblante carregado.
Para Bazin, a objectividade psicológica com que Rossellini tratou a sua principal personagem, estava na lógica do seu estilo. Para ele, há no cinema de Rossellini um “realismo” que nada tem de comum com o realismo que o cinema tinha tentado transmitir naquela altura. “Alemanha, Ano Zero”, não tem um realismo de estilo mas de assunto, onde as acções ficam no mesmo plano que a acção e o contexto. Para Bazin, esta capacidade de Rossellini faz com que não seja o actor nem o acontecimento a comover-nos, mas sim o sentido que o espectador é obrigado a tirar deles.
André Bazin afirma que o sentido dramático ou moral nunca é óbvio à superfície da realidade e termina com uma interrogação, “Não será uma sólida definição do realismo na arte obrigar o espírito a tomar partido sem trapacear com os seres e com as coisas?”.
Mas se, pelas palavras de André Bazin, percebemos que Rossellini se recusou a manipular os espectadores com a narrativa ou acções do actor principal, esperando que fossem eles próprios a tirar o sentido daquilo que viam, entende-se no subtexto que é quase impossível não manipular esses mesmos espectadores. Essa manipulação começa logo com a utilização de uma criança como actor principal ou com as várias técnicas cinematográficas utilizadas, que de certa forma fazem com que o espectador tire ilações mentais acerca daquilo que vê. Apesar de Bazin, com a sua interrogação final, deixar no ar a ideia de que o realismo na arte deve despertar as pessoas e fazer com que elas tomem um partido, a sensação com que se fica ao ler este seu texto sobre o filme “Alemanha, Ano Zero” é de que é inevitável, em cinema, não manipular o espectador.